
No inverno, serei mulher de um homem só. Um de cada vez...
Nesse inverno, quero ser uma mulher de um homem só. Estou na pilha de programinhas a dois, vinho, lareira, não é a melhor coisa do mundo? Nada de muitos corpos ao mesmo tempo para administrar. Isso é divertido no verão, suores, salivas, fluídos, banho de mar, mas, ah, no frio eu prefiro o aconchego de cobertas e de um peito largo, ou dois macios, onde eu possa me recostar. Por isso, comecei a trabalhar com antecedência na escolha do meu par. Peguei papel, caneta e uma taça de champanhe e saí selecionando pretendentes. Pronto, já escolhi minha companhia ideal.
Vou me dedicar intensamente ao Rafa. Fazer todas as sopinhas gostosas que ele adora. Vou cozinhar para ele, tratá-lo como a um rei, de aventalzinho rendado, salto-agulha, seminua. Vou colocar Lou Reed e Bob Dylan para tocar. Ele vai ser minha cobaia para risotos exóticos. E meu parceiro para desvendar novos restaurantes e peças e novidades do circuito erudito. Serei sobremesa, eventualmente, e entrada sempre. Vou me fantasiar de enfermeira. Vamos conversar sobre movimentos artísticos, viagens, medicina, trocar idéias sobre filmes e assistir a DVDs. Na cama, ele vai me beijar com destreza cirúrgica e eu vou desfalecer sem anestesia. E quando ele estiver de plantão médico e não pudermos nos encontrar, tudo bem, terei o Christopher.
Para o Chris, vou fazer dengo. Vou me aninhar nos braços dele feito uma gatinha e bancar a boa moça. Ele sabe que não sou, mas tem esperanças de estar errado. Vou usar vestidinhos curtos sem calcinha e cruzar a perna comportada. Subirei num salto altíssimo, vou mostrar meu ziriguidum. Estrangeiro adora samba. Eu adoro os olhos vidrados dele me lambendo a pele. Nos intervalos de amor, vamos ouvir Cartola e Clara Nunes. E beber água de coco, o meu copo com uma pitada de rum. Ele natureba, eu ao natural. Banhos de banheira com sais aromáticos serão bem-vindos. Vamos contar piadas em francês e rir muito de trocadilhos. Vou beijá-lo no elevador. Vou presenteá-lo com óleos aromáticos e exigir massagens caprichadas. O que ele pedir em troca, eu dou. O que ele não pedir, ofereço. E quando ele tiver que sair para trabalhar, faz mal não, ligarei para o Fred.
O Fred, ah, o Fred... Ele está competindo na França, mas já soube que volta
Os beijos da Deinha são bons em qualquer estação. Mas no inverno, eles adquirem um suave sabor de chocolate e morango, talvez pelas orgias de fondues às quais nos entregamos. Vamos ouvir Ella Fitzgerald e achar que o mundo lá fora não existe. Vamos declamar poesia e beber Clarice Lispector com vinho branco. Vamos andar de mãos dadas no shopping e invadir as lojas de lingerie para renovar nossos estoques. Vamos desfilar uma para a outra, nos provocar até não agüentarmos mais e nos agarrarmos despudoradamente no trocador. Vou comprar flores para enfeitar o cabelo dela. E creme hidratante de vanilla para deslizar em sua pele de seda. Morderei seu lábio inferior, ela não gosta, mas vou morder. Ela vai percorrer minhas curvas com a língua. Quando invadir as dobrinhas, sei que me fará implorar. Vamos tomar chá de tarde. E gastar até a última pilha da minha coleção de vibradores. Prestes a recair na paixão doentia de outrora, ela vai pedir um tempo. Vou conceder. Para serenar o espírito, buscarei refúgio nos travesseiros macios do Vini.
Para o Vini, vou fazer iogurte. Ele adora o meu iogurte e adoro que ele adore. Vou encher a casa de velas, montar ambientes bem românticos, porque ele não tem muitas referências de romantismo e qualquer coisa que eu faça o impressiona positivamente. Inclusive, cafuné. Farei muito carinho, vou deixá-lo tirar os tênis e se esticar no sofá. Vamos sair para dançar e quiçá fazer aula de dança de salão juntos. Ao som de Lightouse Family, vou escutá-lo atentamente quando falar dos filhos, da ex-mulher, dos planos de expansão dos negócios. Vou elogiá-lo, dizer que é o máximo. E ele é. Vou emprestar meus livros. Vamos dormir de conchinha e fazer amor no chuveiro. Se num rompante de brutalidade, ele quiser me esbofetear, vou deixar. Às vezes é bom dar uma quebrada na rotina. E ao sentir vontade de radicalizar, procurarei o Dom.
O Dom é ótimo para momentos lúdicos. Ele saca tudo de brinquedinhos eróticos, amarrações, jogos de dominação. Para ele eu vou tirar do armário minhas relíquias de vinil. E espartilhos rendados. A coleção de chicotes, ele sempre traz. Vou gritar e ele vai bater. Vai lamber meus hematomas e vou gemer de prazer. Terei o consolo de beijos úmidos e movimentos rápidos. Gelo e champanhe estarão sempre a postos. Algemas e vendas também. Ele vai me xingar e vou gostar. Se eu obedecer direitinho, ganharei elogios. E vamos rir e conversar como bons velhos amigos antes e depois das loucas sessões de sexo. Vou assar pães de queijo nos intervalos. E intercalar jazz com lounge music. Meu corpo vai ser a casa dele, quando e onde ele quiser. E se não quiser, tudo bem, recomeçarei com o Rafa.
Não existe a pessoa perfeita. Mas existe perfeição em todo mundo. Ou você aceita a pessoa como ela é - e isto inclui os defeitos. Ou diversifica a procura das qualidades. É muito pesado exigir tudo de um só alguém. Nem você tem tudo a oferecer. Para quê encanar? Um pouquinho aqui, um pouquinho acolá, vá juntado o lado bom de cada um. Todos nós temos limitações, mas as opções são ilimitadas. Viva a monogamia pluralista. Só não esqueça: o nosso primeiro e último amor é o amor-próprio. Antes de procurar o par ideal, encontre a si mesma. Não há companhia melhor.
Verônica Volúpia Versátil, voluptuosa, vibrante. Original, observadora, ofuscante. Livre, liberal, libertina. Urgente, ululante, única. Permissiva, poderosa, prática. Insaciável, indecente, imediatista. Amante, ardente, adorável. Sou Verônica Volúpia, muito prazer.








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